O Talentoso Ripley, de Patricia Highsmith

80192_ggTom Ripley é um salafrário. Sobrevive em Nova York de aplicar pequenos golpes para ganhar dinheiro, golpes que dificilmente o colocaria na cadeia por serem difíceis de serem descobertos, como roubar de velhinhas falsificando assinaturas. Um sujeito extremamente insatisfeito com a vida e consigo mesmo, o prazer de Ripley é imitar outras pessoas, mesmo que seja por alguns instantes, para o divertimento de convidados em festas ou reuniões sociais.

Mas ao mesmo tempo que Ripley despreza sua constituição franzina, ou  reflete sobre sua vida injusta, poucas pessoas conseguem agradá-lo. Ripley é um esnobe. Mas não poderia deixar de ser. Afinal, ele não conseguiria fazer seus trambiques se não fosse dotado de uma notável capacidade mental.  Os movimentos de Tom são friamente calculados: mesmo quando age no calor do momento, imagina toda a situação na cabeça, mede todas as consequências. E isso se deve a sua incrível capacidade de criar histórias. Quando conta uma mentira, acredita piamente nela, conhece todos os detalhes da situação, mas conta apenas o suficiente para conseguir crédito; gagueja e hesita nos momentos certos, como se precisasse lembrar, e olha confiantemente nos olhos para ver se acreditam.

Lições valorosas esse livro oferece.

Patricia Highsmith construiu o personagem de tal forma que os sentimentos de admiração e desprezo se confundem na mente do leitor. No entanto, chega um momento do livro que seria insuportável para Tom caso tomasse conhecimento: você se cansa dele. Nas idas e vindas de Tom pela Itália, você deseja que algo aconteça a ele. Não apenas para dinamizar a leitura, mas também porquê, embora tenha tido uma infância difícil – morando com uma avó que não o apreciava -, Tom é a pessoa mais sortuda do mundo. Muito da sua boa sorte é por conta de sua engenhosidade, mas chega um momento do livro que você quer apenas ter o prazer de dizer: toma, miserável.

Mas por que Tom está na Itália, afinal? O livro já começa com ele recebendo uma proposta para passar um tempo na Europa, e o pouco que se sabe sobre sua vida anterior a isso é contado por meio de lembranças no decorrer do livro. O homem que lhe dá a proposta o seguia, pensando ser ele um amigo íntimo de seu filho, Dickie Greenleaf, por tê-lo visto numa festa em que Tom não foi necessariamente convidado. Tom, é claro, aceita a proposta: passar um tempo na Itália com tudo pago só para tentar convencer o filho de um milionário a voltar pra casa é uma coisa difícil de recusar. Mal conhecer Dickie não é um problema assim tão grande.

Nos primeiros dias que passa em Mongibello, um vilarejo no litoral da Itália, Tom está realmente preocupado em tentar convencer Dickie a voltar, e chega a contar a verdade para ganhar ganhar sua confiança; mas à medida que Tom vai se aproximando de Dickie, mais ele deseja a sua vida (bem, esse é um trocadilho infame…). Ripley não sabe disso ainda, até o momento que culmina na viagem de barco no litoral de San Remo.

Não é difícil imaginar o que acontece. E acho que a capa da edição de bolso (talvez a melhor capa da Companhia de Bolso, curiosamente a que mais se desloca do padrão das outras, também ilustradas no estilo inconfundível de Jeff Fisher) evoca precisamente o teor do livro, e dessa cena em particular. Olha esse barco desolado, sozinho nesse oceano cinza.

No fim, não recusaria ler o resto da série caso caísse em minhas mãos, mas também não correria atrás dos outros livros.

 

A solidão dos números primos, de Paolo Giordano

Mattia sempre teve que dar conta da irmã gêmea, Michela. Porque embora ele tenha desenvolvido uma inteligência fora do normal, sua irmã nasceu com sérios problemas na cabeça. Ao ser convidado pela primeira vez a uma festa de aniversário de um colega, Mattia, já prevendo os embaraços que a irmã iria cometer, decidiu deixá-la num parque e ir buscá-la depois. No entanto, quando voltou, Michela não estava em lugar nenhum. Seguiu-se então uma vida de retraimento. A culpa o fez voltar-se cada vez mais para si mesmo: na impossibilidade de cometer suicídio, Mattia se mutilava sempre que podia, com qualquer objeto cortante que encontrava.

Alice sempre teve problemas com comida, sempre foi magricela e nunca comeu muito, principalmente depois do acidente que a deixou manca e cicatrizada pelo resto da vida: calculava mentalmente os trezentos gramas que comeria no jantar, o resto jogava fora, sub-repticiamente. Ela culpa o pai pelo que aconteceu. Se ele não a tivesse obrigado a fazer as aulas de esqui, ela nunca teria caído na neve daquele jeito. O problema mesmo era que ela nunca beijaria um garoto sendo manca assim. Invejava Violetta, uma menina famosa na escola, por ser capaz de lançar aqueles olhares e conquistar os meninos. Até que um dia, após um episódio de bullying de repugnar até o leitor, Violetta aceitou Alice no seu grupo (a razão de ela querer entrar é insondável), e mandou-a convidar um menino para sua festa de aniversário.

Alice imediatamente apontou para Mattia, que ainda não conhecia, mas que já observava a algum tempo. Não foi nenhum aspecto físico que a atraiu nele, mas sim a própria solidão refletida naquele estranho que logo se tornaria um amigo. Mas não um amigo comum; a amizade de Alice e Mattia seria melhor descrita como uma solidão compartilhada.

Atravessaram aquele período em apneia, ele recusando o mundo, ela sentindo-se recusada pelo mundo, e perceberam que não fazia grande diferença. Tinham construído uma amizade defeituosa e assimétrica, feita de longas ausências e muito silêncio, um espaço vazio e limpo em que ambos podiam voltar a respirar, quando as paredes da escola ficavam muito próximas, para ignorar o sentimento de sufocamento.

Vemos a vida dessas duas pessoas se desenrolar ao longo de 24 anos, vemos o puxar e o repuxar das cordas que relutantemente unem os dois, e vemos como pouca coisa muda, mesmo passado tantos anos.

A linguagem de Paolo Giordano chega a ser quase técnica, mas é pontilhada aqui e ali de passagens e metáforas que conseguem pegar perfeitamente o teor do livro e do que está sendo descrito. Como esta passagem logo no início, quando Mattia está de volta no parque, e percebe que sua irmã desapareceu:

A imagem de Michela – que, com um raminho, brincava de desmanchar o próprio reflexo na água, e depois escorregava para dentro, como um saco de batatas – passou pela cabeça de Mattia com a violência de uma descarga elétrica.

O título evoca bem essa “tecnicidade” e lirismo da narrativa (na verdade foi por conta dele que peguei o livro para ler), mas sua explicação parece um pouco forçada, mesmo que seja perfeito para a história. É uma coisa boba, mas de repente temos Mattia bastante interessado por matemática (de fato, se passaram anos), e bruscamente somos apresentados aos números primos, como se o autor tivesse pensado no título e depois escrito a história (nada de mais nisso), e não soubesse bem como introduzir o assunto.

Para Mattia, ele e Alice eram como números primos gêmeos, aqueles que, além de serem divididos apenas por eles mesmos e por 1, estão separados apenas por um número par, como 17 e 19, ou 2760889966649 e 2760889966651, os números que escolheu para os dois.

Os números de Mattia e Alice poderiam ser 2 e 3, mas nenhum dos dois poderia ser um número par. Eles são “estranhos”, ímpares. A soma de ímpares sempre dá par, mas será que Alice e Mattia algum dia vão se somar? (Brega.)

Desenho para o Inktober.

A resposta é não.

A solidão dos números primos não é uma história de amor. É sobre continuar vivendo, é sobre aceitar a própria solidão, ver sua solidão no outro, perceber que estamos todos quebrados de alguma forma ou de outra e que, no fim, precisamos um do outro (brega?), nem que seja para isso:

A solidão é uma coisa bela, mas precisamos de alguém para nos dizer que a solidão é uma coisa bela. – Honoré de Balzac

Os sofrimentos do jovem Werther, de J. W. Goethe

Werther é um rapaz apaixonado. Depende do dinheiro da mãe, pois não trabalha, e gosta de dar uma ou outra moeda aos habitantes do vilarejo de Walheim com os quais simpatiza. Anda com um livro na mão, que lê e relê: A Odisseia de Homero. Entre suas paixões está desenhar, e principalmente admirar a natureza: Werther dá diversas descrições da magnífica paisagem ao redor da cidade, mas que, por sua vez, considera desagradável. Para Werther, qualquer cidade pareceria desagradável comparada ao campo; ele se encanta com as pessoas simples, ao passo que desdenha da sociedade burguesa.

[…] Se me perguntar como é a gente daqui, direi: como a de todo lugar. Coisa bem uniforme, a espécie humana. A maioria gasta grande parte do seu tempo trabalhando para viver, e o pouco tempo que lhe resta pesa-lhe de tal modo que procura todos os meios para desfazer-se desse tempo livre. Oh, o destino dos homens!

Mas é gente muito boa! Se alguma vez me esqueço de mim, se alguma vez experimento com eles os raros prazeres que ainda são concedidos aos homens, […] isso produz em mim um efeito excelente, contanto que não me ponha a cismar que em meu ser existem muitas outras faculdades que podem se enfraquecer por falta de uso, e que devo ocultar cuidadosamente! Ah! Isso constrange o coração… E no entanto, ser incompreendido é o destino de muitos de nós.

Werther começa contando que está feliz por ter partido. Quer esquecer o que aconteceu, começar de novo. Uma amiga que era apaixonada por ele alcançou um triste fim; Werther só tinha olhos para a irmã dela.

Os encantos de Walheim (entre eles uma gruta com a qual se admira, porque é onde, assim como antigamente, as moças da cidade vão buscar água, e conhecer seus maridos) parecem ter surtido efeito, pois ele quase não toca mais no assunto nas inúmeras cartas e bilhetes subsequentes que envia para Wilhem, o amigo com o qual se corresponde.

Então ele conhece Charlotte S. quando passa em sua casa para irem a um baile campestre organizado pelos jovens. Werther tem como par uma jovem bonita, “mas insignificante”, que o alerta de antemão: “Você vai conhecer uma bela pessoa”, mas “ela já está comprometida com um excelente rapaz, que se ausentou daqui para pôr em ordem seus negócios”. Para Werther aquelas informações eram-lhe “absolutamente indiferentes”, e é claro, ele se apaixona por Lotte.

Dançam durante a noite, conversam, e por todo o percurso de volta, conversam mais. Voltam a se ver no mesmo dia e aos poucos a relação deles vai se estreitando, a ponto de Werther mudar de casa para ficar mais perto de Lotte.

Sim, querida Lotte, deixe tudo por minha conta: faça-me mais pedidos; dê-me esses encargos com mais frequência. Só lhe pediria uma coisa: nunca mais seque a tinta de seus bilhetes cobrindo-os com areia! O de hoje, levei-o vivamente aos lábios, e ainda agora a areia me range entre os dentes.

É assim que você imagina Werther na maior parte do livro.

No entanto, Albert, o noivo de Lotte, retorna. A partir daí, as lamentações de Werther duram até o fim do livro. Ele decide partir novamente, mas protela e protela até que não aguenta mais. Deixa Lotte e Albert – que já estão casados -, deixa Walheim, e aceita um emprego que lhe tinha sido oferecido a muito tempo, mas que relutava em aceitar.

Como seria a vida de Werther se ele tivesse continuado no emprego, suportado o chefe insuportável, tentado esquecer Lotte e seguido em frente? Talvez tivesse conhecido outra moça, talvez tivesse se casado, talvez fosse promovido, talvez voltasse a Walheim muito tempo depois e jantasse com Lotte e Albert e relembrasse os velhos tempos.

Mas ele deixa o emprego, e retorna pouco tempo depois, mesmo sabendo que Lotte nunca será sua; retorna para cumprir seu destino: Werther acredita que foi colocado no mundo para sofrer. Mas admite que a causa de seu sofrimento vem de dentro de si.

Quando Os sofrimentos do jovem Werther saiu e se tornou um sucesso de vendas, diz-se que muitos jovens, inspirados pelo livro, além de – entre outras coisas – tentar se vestir como Werther, também optaram pelo suicídio.

Pergunta-me se deve enviar livros?… Em nome do céu, amigo, mantenha-os longe de mim! Não quero mais ser guiado, excitado, animado: meu coração já se agita o bastante por si mesmo.

É interessante pensar como os livros influenciavam os jovens naquela época, da mesma forma que hoje somos guiados pela indústria do entretenimento e pela mídia. As pessoas que dizem “esses jovens de hoje em dia” (alguém ainda fala assim?) diriam o mesmo de jovens como os seguidores de Werther. O eterno conflito de gerações…

Mesmo que o enredo do livro esteja completamente disposto aqui, a leitura não vale a pena por conta da história em si, mas pelas reflexões que Werther faz em suas cartas (como a citação do início) sobre a vida em geral. Saber o enredo ajuda a perceber como Goethe colocou várias dicas sobre o que iria acontecer, seja pela história de personagens secundários, seja pela vida do próprio Werther. Será que chega o ponto em que já vimos de tudo o que poderia acontecer em nossas próprias vidas e agora é só esperar para ver? Será que nossa vida é repleta de sombras lançadas do futuro, predições do que está por vir? Pois assim Goethe construiu a vida de Werther: um ciclo. Porém um ciclo que, no entanto, paradoxalmente, acabou chegando ao fim.

Como Proust pode mudar sua vida, de Alain de Botton

Para quem não conhece o canal de Alain de Botton no YouTube, vale a pena se inscrever. Na opinião do idealizador do The School of Life, assim como estudamos para exercer uma profissão, devemos aprender a como nos relacionar com as pessoas, como aproveitar os pequenos prazeres, como lidar com a ansiedade de status etc. Para ele, universidades não deveriam ser divididas em “História”, “Literatura”, “Filosofia”, mas sim em departamentos que abordam assuntos de relevância para nossa vida, como o autoconhecimento, ou como ser mais compassivo. Isso erradicaria o tipo de pergunta que todo mundo faz na escola: “para que vou usar balanceamento de equações na minha vida?” É claro que uma escola assim também erradicaria a produção de novos conhecimentos, mas não vamos nos ater a isso. A intenção não é substituir as universidades tradicionais, mas sim complementar esse aspecto da sociedade que é muitas vezes negligenciado nas escolas.

E isso pode ser feito a partir da cultura. Para de Botton, a cultura pode e deve ser usada como terapia. Ele deve discorrer mais sobre isso no Arte como terapia, que ainda não li, mas neste vídeo, em que responde a pergunta para que serve a literatura, temos uma ideia bem clara do que ele quer dizer:


(Clique aqui para assistir com legendas.)

Em um dos capítulos do livro, o autor fala a respeito de um ensaio de Proust sobre um rapaz insatisfeito com as coisas triviais e feias que estavam à sua volta, no apartamento dos pais. Ele desejava as coisas belas e caras que via no Louvre. A solução de Proust seria apresentá-lo aos quadros de Chardin, para abri-lo os olhos para que pudesse ver que, apesar de triviais, aqueles objetos poderiam ser belos.

A interpretação de de Botton: muitas vezes a causa da insatisfação com a vida deriva da nossa incapacidade de olhar apropriadamente para ela.

Essa pintura me lembra de outra passagem, em que um livro de memórias sobre Proust, escrito por um amigo, fala como o escritor encontrava nos quadros que observava pessoas conhecidas, relacionando a arte com sua própria vida. Ao assistir o documentário da BBC Ways of Seeing, John Berger fala como as crianças (antes de serem ensinadas a ver a arte como algo ininteligível e sem propósito), da mesma forma que Proust, conectam imagens à sua própria experiência. Num quadro de Caravaggio, uma figura que parece ser Jesus aparenta estar falando com um dedo levantado com outros quatro homens, ao redor de uma mesa com comida: para uma das crianças, a comida deve ter sido roubada, e os homens estão discutindo se seria certo comer.

No capítulo Como expressar suas emoções, o autor fala como Proust se irritava quando as pessoas inseriam palavras em inglês na fala, quando existia um substituto perfeitamente apropriado em português francês (ainda bem que isso é coisa do passado؟). Proust também sentia gastura com clichês do tipo “a lua está linda hoje”; por que não: a lua parece “uma atriz que ainda não está na hora de entrar em cena e que, da plateia, em toalete comum, olha um momento suas camaradas, apagando-se, indesejosa de chamar a atenção”? Alain de Botton observa que o uso de clichês é uma necessidade de soar como outra pessoa. E embora possamos ser incapazes de nos expressar dessa forma sobre a lua, o importante é falar do seu jeito, e não achar que os clichês são a expressão máxima de alguma coisa. O filme não é bom porque é “massa”, o livro não é bom porque “os personagens são totalmente cativantes” ou “o autor escreve bem”.

Neste vídeo, Stephen Fry traz de volta esse assunto da originalidade de expressão, criticando as pessoas que corrigem o português dos outros só por corrigir o português dos outros, e não por apreciar a linguagem em si. Ele fala que, hoje em dia, as pessoas que se expressam de forma diferente e inovadora geralmente são zombadas, ou querem “se achar”. Não sei qual é a linha que divide “querer soar como os outros” e “ser original ao se expressar”, mas ela parece ser bem tênue.

Essas são apenas algumas coisas que me chamaram atenção no livro. Marcel Proust queria escrever livros que fizessem tanto pela vida das pessoas quanto os livros médicos de seu pai, que ajudou a erradicar a cólera na França. Alain de Botton apresenta a vida e obra de Proust, mas o título bem poderia ser “Como a literatura pode mudar sua vida”. Não importando a superficialidade do livro (quero dizer, é muito curto), me deixou com uma vontade imensa de ler Em busca do tempo perdido.

O Quinze, de Rachel de Queiroz

Foi com Metonímia, ou A Vingança do Enganado meu primeiro contato com a escrita de Rachel de Queiroz. Ao término do conto – que era lido na sala daquele jeito que as professoras fazem para incentivar a leitura: um parágrafo mono-tom por aluno -, tiveram que me explicar o que tinha acontecido. O conto tem três capítulos, e começa como uma crônica, explicando a metonímia e como ela aparece no cotidiano, e segue com uma história de marido & mulher e traição. O final é hilário e sem noção (e pensando agora me lembra os filmes dos irmãos Coen) e desde então tive vontade de ler mais coisas de de Queiroz.

Não foi por falta de oportunidade que só quatro/cinco anos depois peguei O Quinze para ler, só falta de vontade mesmo. O caso é que literatura brasileira nunca me atraiu muito. Cadê as florestas traiçoeiras, os animais falantes, as terras pós-apocalípticas, a aventura? Não que eu goste somente desse gênero, mas por conta dele achava a literatura estrangeira (também conhecida como americana/inglesa) muito mais interessante e criativa. Também, a literatura brasileira parece ser bem mais difícil; e aí, além do interesse na história, entra a linguagem, que exige mais reflexão. Isso, é claro, depende do livro, mas esse é o estereótipo que tenho na cabeça.

Essa vaca tá até gorda para o que é descrito no livro.

Não, O Quinze não mudou isso. E foi exatamente a linguagem que me encantou na escrita de Rachel de Queiroz. O livro não é desafiador, é bastante sucinto, não apenas por conta do tamanho; mas há uma economia nas frases (o que alguns consideram por si só “boa escrita”), nada é dito que não precise estar ali, e tudo é pontilhado com palavras que só pelo som parecem nordestinas, quase dá para ouvir o sotaque cearense nos diálogos e na narração. Olha isso:

E afinal, quinze dias depois, Conceição conseguia arrastar Mãe Nácia, que desolada e chorando, era como uma velha estátua a quem roubam do pedestal, e carregam atabalhoadamente, na confusão de uma mudança feita às pressas.

Sua vista nublada se perdia naquele horizonte há tantos anos esquecido. A fumaça do trem escurecia o céu transparente, num arremedo de nuvens. De um e de outro lado, a mata parecia esgalhamentos de carvão sobre um leito de cinzas. E o comboio, entrando numa curva, sibilando e rugindo, era como uma cobra que fugisse sobre o borralho ainda quente de uma coivara.

A mão trêmula da velha tateou o bolso da saia, procurando o rosário. A neta percebeu o movimento e leu-lhe nos olhos a aflição e a ansiedade:

– Que é que tem, Mãe Nácia? Esqueceu-se de alguma coisa?

Como alguém consegue escrever assim? E essa nem é uma das melhores passagens do livro, só escolhi uma página aleatória. É isso que falo quando falo que a literatura brasileira exige mais reflexão. Parece haver um cuidado maior com a escrita, pela escolha das palavras, um amor pela linguagem (observe o itálico; é claro que qualquer bom escritor reflete e rumina nas suas frases, escreve e reescreve, um vai e volta sem fim). Talvez isso seja apenas uma impressão, talvez eu só tenha começado a prestar atenção agora…

O Quinze fala sobre a seca de 1915 e lança luz sobre os campos de concentração que foram criados no Ceará – na época chamados de “currais do governo”, que chegou a comportar, em 1932, mas de 70 mil pessoas. O motivo? Evitar que os nordestinos famintos invadissem a bela Fortaleza, o que aconteceu em 1877, quando sertanejos “aterrorizavam a população urbana”.

Além da paisagem desoladora, com cenas de fazer embrulhar o estômago de alguns, o livro possui uma das histórias de amor mais sinceras e verdadeiras da literatura mundial.

captura_de_tela_2015-03-27_as_14.29.49

Leiam a imagem.

Os personagens são totalmente cativantes. Não temos um discernimento abrangente em sua psique, mas é impossível não sentir uma empatia profunda por aquelas pessoas, os flagelados, os afligidos pela seca que fogem dela e depois não têm para onde ir. A seca, afinal, além de cenário, é a vilã da história toda. O inimigo invencível, a nêmesis do nordestino. Na luta do bem contra o mal, quem vence no final?

Olá, mundo!

Este é seu primeiro post. Clique no link Editar para modificar ou excluir, ou então comece um novo post. Aposto que você nem vai perceber esta frase escondida aqui. Se preferir, use este post para informar aos leitores o motivo pelo qual você iniciou este blog e o que planeja fazer com ele.

Continue blogando!